quarta-feira, 8 de abril de 2015


CORAÇÃO SUBURBANO

                                                                                Para Imolê Onawale

o meu coração não quer
ser completamente urbano
não
pulsa pop, pós-moderno
baile funk de salão
mas se larga à beira-mar
lacrimando uma canção de amor
mariscando sensações
ruminando o tempo
(todo tempo interior
que eu me possa permitir)

batendo no peito do povo de keto
meu coração brilha
para o mundo ver
e volta sempre à mesma trilha
lenta
                            de trem no trilho
volta sempre pra você

meu coração de subúrbio
quer o plus metropolitano
sem os adereços violentos
que lhe tirem o ar provinciano
sem aquelas coisas mais (demais)
que lhe turvem o céu
ou em que possa sucumbir

meu coração suburbano
gosta das luzes da cidade
da distância        da cidade
dessa possibilidade... 







Em 2006, pelas mãos da jornalista e produtora Urânia Munzanzu, tive o poema acima escolhido para integrar a série "Salvador em Versos" da TVE- BA. Um estagiário, do qual perdi o contato e ainda busco, fez este belo 'clipoema'. Confiram.

https://www.youtube.com/watch?v=WsqTegFgxik&feature=youtu.be


sábado, 21 de março de 2015

Atendendo ao convite do Grupo Nzinga de Capoeira Angola-Salvador (Mestras Janja e Paulinha, Mestre Poloca), participei, junto com a poeta Jocélia Fonseca, de um sarau após a roda do grupo. A atividade, ainda pela passagem do Dia Internacional da Mulher (8 de março), acontece ás sextas, e ontem teve como homenageada a escritora Maria Carolina de Jesus. Para mim, foi grande honra, esse encontro com pessoas amigas de longas datas. Mestra Paulinha (Paula Barreto), à época contra-mestre, foi a 'mais velha' quem me ensinou os primeiros movimentos de Capoeira Angola, antes que eu pudesse treinar com às alunas e alunos mais velhos no GCAP. Ao longo da minha formação humana (que continua, obviamente), na família, na política, na religião tenho tido o privilégio de receber de mulheres lições mais que fundamentais de vida. Privilégio e extrema responsabilidade, tendo em vista o eterno (e cotidiano!) holocausto que o sexismo faz desabar sobre as mulheres - tragédia da qual eu não devo me afastar, mesmo (e apesar de) carregando um traço fundamental do seu algoz. Celebramos, contudo, tal como na feminina entidade Capoeira, a capacidade de superação da mulher, a sua "ânsia de liberdade". 





CAPOEIRA ANGOLA

                                 Ao Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP)
                                 Ao Mestre Moraes




a chama sagrada da vela
eterna
acima do claro-escuro dos faróis
tão velha quanto oração
moderna
cobre o arco-tempo sobre nós

sábia claridade, que me cala e põe atento
complacente, e curva, e roda, e sempre
ao mais leve frágil vento...
ás!
de repente
fogo queimando (medo)...
relaxando em riso franco
de menina sem segredo
um brinquedo...

e a ciranda que as voltas do mundo não pára
a cada salto do escuro
nos põe numa nova equação
nos faz traçar as rotas impossíveis da sobrevivência
transpor  atlânticos
cruzar chibatas
vencer as matas
e alcançar a liberdade

desde África essa força nos anima
cobrindo de a alegria, a dor
cumprindo a volta por cima...
toque de magia:
triste e perseverante
qual angola e ladainha

capoeira angola
faz do banzo só saudade
recria do nó a nossa cidade
tirando, do fio, novelo
e da roda pequenina, espelho
para encarar a roda-vida todo dia
capoeira angola
sempre
pão pro corpo
pão pra alma
pão pra mente

                                                                                                                      lande - 1995

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

                                 RIFANDO A CAUSA NEGRA EM TROCA DE VOTOS

Sob o falso manto de homenagem a gloriosa Frente Negra Brasileira, um grupo de negros equivocados e/ou meramente oportunistas usaram o ‘santo’ nome da FNB para angariar votos para os candidatos do governo, em Savador. Lançam mão de um dos maiores símbolos da luta negra no Brasil para colocar na rua uma campanha açodada, desesperada, eleitoreira e, por isso mesmo, desrespeitosa! Tantos corpos tombados nos últimos dias na mesma cidade não mereceram um milésimo dessa disposição negrista. A ausência de fóruns para debater e encaminhar nossas demandas continua sendo, na contemporaneidade, o grande túmulo do Movimento Negro (ah, no SINGULAR, por favor!). É daí, inclusive, que emerge a legião de candidatos que ano a ano vêm falar, por si mesmos, em nosso nome. Zumbis?Quisera fossem... É também dessa cova (ainda não soterrada, sonho eu) que surge agora essa triste convocação, mas que não fará revirar espíritos como os de José Correa Leite e Aristides Barbosa, impassíveis em sua dignidade.
Que negros e negras em movimento manifestem seu apoio aos candidatos Dilma. Rui e O... é um direito que lhes cabe. Não fecho os olhos, aliás, ao fato e ao salto da presença negra em esferas governamentais nos últimos anos, ainda que em lugares delimitados por um cerimonial branco, como convidados. Contudo, que não façam de nossas aspirações seculares, de nossos símbolos maiores muletas improvisadas para simplesmente tentar alavancar números de uma corrida eleitoral e eleitoreira. Não, senhoras e senhores, não. Homenagem à Frente Negra seria a convocação diuturna para rearticularmos nossas forças e fazer frente, por exemplo, ao genocídio da juventude negra.
Ficam aqui as palavras de Márcio Barbosa no artigo (ele também tem um livro sobre) “FRENTE NEGRA BRASILEIRA – Gestando um PROJETO político para o Brasil.*
“Nem sempre o protagonismo afro-brasileiro é lembrado de forma positiva ao longo da história. A nós os relatos oficiais geralmente reservam o papel de coadjuvantes nos grandes eventos, especialmente naqueles que ajudam a definir a situação sociopolítica do país.”

Lande

*Ver no site quilombhoje2.com.br

segunda-feira, 2 de junho de 2014


O BRANCO ANJO NEGRO 
                                   para a atriz Vera Lopes

Um texto dispensável, o Anjo Negro DE Nelson Rodrigues, no contexto das celebrações dos 10 anos da CAN – Compahia Teatral Abdias do Nascimento - e 100 anos de Abdias do Nascimento, através do imperdível e impecável Abriu de Leituras.  Um texto onde, supostamente, o autor denuncia o racismo, mas ele próprio vê e trata personagens negros como apenas uma cor: pretos (e pretas). Não somos homens ou mulheres, mas o preto 1, o preto 2, a preta 3... como também nos trata outros monstros (lato...não, não deixa pra lá) da literatura brasileira  - Fernando Sabino, Jorge Amado, Herbert Sales, Rubens Fonseca e por aí vai. A preta fez isso, aí veio a mulher, e fez aquilo. Não a branca, ou o branco veio, mas a Mulher, ou o Homem. Não sois homens, pretos é que sois.
Nelson Rodrigues... o anjo pornográfico... alcunha criada por ele mesmo, reunindo uma segunda ‘justa oposição’ entre substantivo e adjetivo... como é caprichosa a intelectualidade branca nacional.
O Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas, nosso NATA, foi lá e fez (bem) o que pôde em termos de movimentação, adaptação, luz, figurino, mas o texto em boa parte é um samba de branco (e de um nota só) – e a diretora Fernanda Júlia nos confessou a todos que esbarrou nas limitações da visão de um branco sobre nós, e sobre o racismo.
Então, tivemos o preto, o tal preto (devo usar maiúscula?), o grande preto - ele era grande, frisa o autor. O preto que, eu diria, inadvertidamente Nelson Rodrigues chamou de Ismael – e eu chamarei de preto 1. Pois este preto 1 DE Nelson Rodrigues odeia ser preto. Odeia e pronto. E preto. E ponto. Nasceu assim o desgraçado, trazendo o mal da cor, na cor. Brancos não têm nada a ver com isso, tá vendo? Eles mesmos se discriminam e não gostam de si... 
Além de o tornar médico, o complexo e a inteligência do grande preto 1, só o ajudaram a cegar um jovem branco, que o tinha como irmão, uma adolescente branca, que o tinha como pai(!), violentar uma branca virgem (até no nome) e a ver como grande culpada pela sua pele escura a própria mãe e seu ventre preto corrompido pela existência. Não sei por que Nelson Rodrigues e SEU preto não culparam logo Deus,  em última instância o responsável por toda concepção. Ah, imagino: Deus é branco...

E anjo negro não existe.

Lande Onawale  - 02/06/2014

domingo, 1 de junho de 2014





AFIRMATIVA REVISTA

...ainda sobre o número 1 da Revista Afirmativa - como se eu já tivesse dito algo rs - os textos ficaram muito bons. Enxutos e informativos, como pede o bom jornalismo, e também espirituosos, como pede o melhor jornalismo - sobretudo a reportagem de Morgana Damásio com o historiador Clíssio Santana. Assim como em outras páginas, textos onde a palavra flui, os trocadilhos não sobram, enfim, bons. "Paradoxalmente", na última reportagem, Clissio (ou a editoria) deixou de fora o 'espírito' de Esperança - ou alguém do lado de 'lá'... Se era segredo um certo episódio vivido por ele quando da descoberta do drama da jovem Esperança, escravizada no Recife,eu acabo de traí-lo. Em parte.
Menciono o fato, porque acredito que a dimensão espiritual, tal como acompanha um sem número de aspectos da nossa vida, deva acompanhar nosso trabalho acadêmico-científico. É ciência preta, afinal. It's felling!
As imagens e cores também gostei muito. Bem escolhidas - salvo a foto da reportagem 'Nome de Guerra'. Algo me pareceu insuficiente ali: a imagem ou a legenda... na outra página, aliás, a "melhor" imagem; a charge de Latuff e sua trágica precisão.
Vamos em frente - e ainda tem tanta coisa, coisa, né? Marcha Contra o Genocídio, Cinema, Teatro, Literatura, Racismo na Copa... (isso também vai ter, sim)
Parabéns, mais uma vez, família Afirmativa. Vida longa.

Lande Onawale - maio, 2014

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pegadas Racistas Na Terra Preta, Fétil e Bela - o documentário Lápis de Cor


 

"A caixa do lápis de cor brincando nas mãos de Deus. De repente, pinta gente de tudo que é cor de pele. Tão lindos e diferentes, que mesmo que Deus se mele, é divertido brincar."

                                                   
lapis de cor -reproducao


O documentário “Lápis de cor” (2014), dirigido pela estudante de Cinema e Audiovisual da UFRB, Larissa Fulana de Tal, natural de Salvador e integrante do movimento de cinema negro Tela Preta, aborda a representação racial no universo infantil e a maneira como o padrão de beleza eurocêntrico afeta a auto-imagem e auto-estima de crianças negras, revelando a ação silenciosa do racismo na infância. O filme que conta histórias reais de crianças da periferia estreia em rede nacional e internacional através do Canal Futura no próximo dia 22 de abril (terça-feira), a partir das 14:30h. Confira o trailler e deixe-se instigar: http://youtu.be/7O6G82UgTrM
(Fonte: http://www.portalaponte.com/)


PEGADAS RACISTAS NA TERRA PRETA, FÉRTIL E BELA

Embora ache que todos os assuntos, a depender do modo, podem ser tratados com crianças, eu vez ou outra perco esta certeza. Foi o caso, com o curta-metragem LÁPIS DE COR, de Larissa Fulana de Tal Santos (movimento Tela Preta).
Quando vi as imagens, pensei que só poderia colaborar ofertando a criança que trago em mim... Mas (mais) uma criança tão machucada já não cabia. Era preciso o acolhimento adulto.
Retomei a convicção de que se você é uma flor em um campo onde andam paquidermes de todos os tamanhos, não há como ser somente bela e perfumada quando algo desperta uma lembrança esmagada, quando a simples visão ou o som de grandes pisadas evocam a violência da existência. Alguma coisa há que tremer dentro de si. Como milhões de crianças não-brancas no Brasil e no mundo, assim são as crianças do Lápis. Quando esquecem que são negras, são negras, lindas e alegres, quando lembram que são negras, esquecem que são lindas, e lembram que são tristes - e, obviamente, soam confusas. No documentário, é certo, falta-nos os paquidermes. Só vemos as suas pegadas. Profundas.

O filme também me dizia que a jovem diretora, para além de questões de orçamento e condições de filmagem, devia ter vivido o impulso e o drama entre mostrar corações sangrando, ou estancá-los enquanto as tomadas eram feitas... Ela me pareceu ter optado pela primeira (e tão difícil) opção, apostando, talvez, que a visão daqueles corações – mesmo sangrando, e mesmo infantis – ainda tivesse algum poder de fazê-los gritar dentro de quem os veriam... Larissa quis transformar música, luz, cores, e enquadramentos em braços, olhares, cafunés, afagos e magia. Coube-nos, à equipe, segui-la. Penso que só uma mulher tomaria essa contradição e risco nas mãos; ou melhor, no colo.



Depois de amanhã vocês me dizem se estou certo...


(Lande Onawale)


...porque 21 é sempre 1º de abril...



NEGRO MINA

na lápide 
o pedido de vovô
- negro mina, falou:
"tiradentes
consciente
coerente
ele não traiu os seus...

traiu os meus"


(L.O)